\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Colégio Estadual Arena Amazônia

Publicada em 04/10/2013.

Talvez pelo distanciamento em relação às paixões daquilo que estão tratando, não raro algumas das melhores reportagens sobre o Brasil são feitas por veículos estrangeiros. As manifestações de junho, por exemplo. Falou-se muita bobagem lá fora, sim, mas não mais do que ouvimos de alguns dos nossos próprios analistas, que supostamente deveriam fazer uma leitura mais acurada. Como diz a máxima: às vezes é preciso se distanciar da tela em alguns passos para compreender a ideia total da pintura. Nesta semana, o New York Times publicou uma das melhores matérias sobre a Copa de 2014, pegando um aspecto da preparação para resumir a empreitada quixotesca que ele está sendo na maioria das cidades. Poucos duvidam que a Arena Amazônia seja um dos estádios condenados a virar elefante branco após a Copa. Mas ninguém o havia utilizado como uma metáfora tão total quanto o diário nova-iorquino. O Times ressaltou a incrível dificuldade que é levar adiante as obras em meio ao clima da floresta que cerca a metrópole. As complicações vão desde a escolha do momento para fazer as soldas, pois a umidade pode condená-las, até a demanda por cadeiras de um material específico – ou o sol equatorial vai desbotar o plástico. Além disso, é preciso correr para concluir a cobertura antes da estação das chuvas, no fim do ano. O texto pincela a ironia de empreender tamanho esforço para erguer um colosso que receberá apenas quatro jogos da Copa e depois... ninguém sabe. Os clubes amazonenses sofrem para juntar mil torcedores. Os grandes eventos e espetáculos que se espera atrair provavelmente não virão: eles fogem de Manaus nem tanto pela falta de uma estrutura, mas pela localização da cidade. A sugestão pragmática de transformar a arena num centro de triagem de prisioneiros resume de forma chocante a busca por dar utilidade posterior ao investimento de retorno questionável. Em cidades como Manaus, onde o “futebol profissional” é quase amador, os estádios deveriam ter sido pensados com função social. Ok, não como prisões, mas tampouco como centros comerciais. Por que as novíssimas arenas não poderiam ceder suas salas reluzentes para, ao invés de lojas, salas de aula? Talvez um dia cedam, de improviso, após a iniciativa privada perceber que o lucro por ali não é tão simples quanto o prometido – isso bem depois de abandonarem a estrutura até o nível do sucateamento, quando enfim a devolverão para a sociedade.