\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

A guerra perdida diariamente

Publicada em 23/08/2013.

Há algumas semanas, ao tratar da polêmica da regulamentação do consumo de maconha em outros países, o jornal Zero Hora destacou uma entrevista que fez com um especialista em dependência química, buscando trazer o debate para o Brasil. Pois. Quando o verdadeiro debate é sobre segurança pública, a opinião buscada é de alguém que não fala sobre isso, e é acionado apenas para confirmar o óbvio e desviar o foco. É claro que as drogas não fazem bem, assim como não o fazem as bebidas alcoólicas. Mas o que está em discussão é o nosso modelo de combate ao consumo de entorpecentes: e a consciência de que a maior parte da violência relacionada ao tráfico se dá justamente porque o comércio é ilegal, dá muito dinheiro, e precisa da força para se manter. No passado, a Lei Seca fortaleceu a Máfia nos Estados Unidos como nenhuma outra medida, graças ao tráfico de bebidas. Quem menos se interessa pela legalização são os traficantes – e os políticos e policiais dependentes de seus subornos. Já temos um caso comprovado: como revelou o Fantástico em julho, Rondônia é o primeiro narcoestado do Brasil, com documentos registrados em cartório (!) demonstrando a compra de vereadores e deputados pelo tráfico local. Beto Baba, o traficante que sustentou as candidaturas em troca de influenciar seus gabinetes, poderia muito bem ter tentado financiar seus legisladores para reduzir o controle sobre seu comércio. Mas Beto Baba é contra a legalização das drogas. Na verdade, nós já sabíamos desde o início que as campanhas antidrogas não surtiriam o efeito desejado, só esquecemos da lição em algum momento. O trecho abaixo é de uma matéria da Zero Hora sobre o tema, mas de quarenta anos atrás: publicada em junho de 1973, na ditadura e sob censura. Dizia: “Se o governo brasileiro está pensando em lançar campanha de prevenção contra o uso de drogas pelos adolescentes, é bom que desista da idéia para não perder tempo e dinheiro. Campanhas semelhantes, tentadas nos Estados Unidos, fracassaram e praticamente ninguém acredita mais nelas. A advertência foi feita pelo médico norte-americano David Lehman, diretor e membro de vários comitês de combate às drogas na Flórida [...]. ‘As campanhas de prevenção não tiveram nenhum efeito em meu país, por mais que se mostrassem cenas horríveis e chocantes de viciados, nada se conseguiu. [...] - declarou Lehman. O médico americano afirma também que é errado pensar-se que os adolescentes que aderem às drogas têm algum problema psíquico ou de ajustamento”.