\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Medo de gravador

Publicada em 09/08/2013.

Os antigos manuais de jornalismo – não tão antigos: dos anos 70 – mencionam diversos cuidados a se tomar quando se vai à rua com um gravador na mão. As recomendações geralmente são técnicas: cuidado para a fita não enrolar; para não gravar por cima do que estava antes; leve sempre rolos suficientes... Precauções que hoje parecem alienígenas, quando a maioria dos gravadores é digital e o único cuidado que você precisa ter é se a bateria aguenta o tempo da próxima entrevista. Ficou muito mais fácil usar a máquina, mas o mesmo não se pode dizer do uso social (se é que esse termo cabe) do gravador. O gravador é ambíguo, para o jornalista e para a fonte entrevistada. As vantagens podem ser facilmente sobrepujadas por temores. Muitas vezes, a simples possibilidade de ter sua voz registrada para sabe-se lá qual fim assusta quem vai dar uma entrevista, principalmente se o sujeito não costuma falar com jornalistas. Não é recomendável sair com um gravador para entrevistar um velhinho anônimo no banco da praça, salvo se você for repórter de rádio e não tiver alternativa, mas mesmo nessa hipótese vai ser preciso alguma conversa para diluir os medos. Por outro lado, há aqueles que fazem questão de ter a conversa gravada, para garantir o registro fiel do que disseram e reclamar – às vezes na Justiça – se suas palavras foram usadas fora do contexto e com um sentido diverso do pretendido. Esses problemas são um tanto óbvios. O que nós, jornalistas, não costumamos admitir, é que também temos medo de gravador. Não só por essa possibilidade de usarmos certas aspas equivocadamente – ou de termos nosso texto alterado por um editor sacana, como são todos os editores, e a escrita não ter mais nada a ver com o que dizíamos no início –, mas por outro aspecto, muito mais mundano: o horror que temos a perder horas transcrevendo a conversa. Nosso medo de gravador é, antes de tudo, o medo da transcrição. Porque os prazos estreitos nos acossam e ninguém parece muito disposto a investir o dobro do tempo da entrevista ouvindo ela de novo. É principalmente por isso, e não pela resistência do velhinho anônimo sentado no banco da praça, que muitas vezes preferimos o bloco de notas e transformamos tuas aspas num emaranhado de garranchos anotados na hora, que depois saem no jornal. Transcrever entrevistas é, talvez, o inconveniente mais subestimado da lida jornalística. Vivemos pelo dia em que inventem um gravador barato que transforme conversa em texto, com qualidade. Já existem sistemas assim, mas são péssimos. Claro que nesse dia talvez prestemos ainda menos atenção ao diálogo e o jornalismo piore um pouco mais. Mas a culpa é sempre do prazo.