\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Neandertais

Publicada em 02/08/2013.

O primeiro Grenal da Arena não vai ser de torcida única, o que nos salvou de uma opção equivocada em nome da “segurança” (a Argentina usa torcida única há anos e a violência só cresce), mas não encerrará o debate. A discussão voltará logo após um torcedor mais exaltado quebrar algo no reluzente estádio rival, sejam colorados na Arena ou gremistas no novo Beira-Rio, e aí ouviremos outra vez sobre como o “patrimônio de primeiro mundo” precisa ser conservado. Ouviremos os mesmos pontos de vista batidos e simplistas que culpam somente as torcidas organizadas e ignoram décadas de incompetência policial, de conivência dos dirigentes e de lentidão do poder público para coisas tão básicas quanto banir os torcedores violentos já fichados. Tirar os torcedores adversários das arquibancadas é como colocar na estrada uma placa dizendo “Cuidado: buracos na pista” e achar que o problema está resolvido. Não. Um jogo de torcida única seria, para além do futebol, uma derrota da sociedade, ao menos da sociedade da metrópole. Porque, convenhamos, a violência nos estádios das grandes cidades acabam refletindo sua própria violência urbana, tanto na truculência policial quanto na demência dos desordeiros. Os protestos de junho deram um bom exemplo disso, com os incidentes mais violentos se dando nas capitais, e não no interior. Para não soar a análise sociológica barata, vamos manter o exemplo no futebol: quando os Grenais são disputados no interior do estado, a cancha é dividida em metades iguais, ninguém é escoltado até o estádio e os torcedores saem juntos, sem incidentes. As torcidas organizadas ainda estão lá. De fato, provavelmente são os únicos elementos saídos de Porto Alegre para o jogo – pois o resto das arquibancadas costuma estar ocupado por gente do interior que quer uma chance de ver uma partida daquelas perto de casa. Recuso-me a acreditar que somos mais civilizados por sermos interioranos – embora numa cidade pequena seja mais fácil “ser alguém para alguém”, o que nos faz pensar mais vezes antes de cometer uma temeridade, estejamos vestindo a camisa do nosso time ou a farda da brigada –, e prefiro acreditar que podemos fugir das platitudes e tentar tirar lições dos exemplos práticos. Por que em Erechim dá certo? Uma de tantas explicações é que os 150 baderneiros de sempre, quando estão entre 10 mil, serão muito menos relevantes e poderosos do que se metidos num grupo de 1.500 torcedores. Não vamos nos iludir: os baderneiros estão sempre lá, com ajuda (às vezes até financeira) dos próprios dirigentes; reduzir a cota da torcida não os eliminará. Se os bons são maioria, vamos fazer essa maioria ter mais voz. Por Grenais com mais visitantes.