\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Nossos debates ainda são os mesmos

Publicada em 19/07/2013.

 

Há uma semana, usei este espaço para trazer argumentos dos colombianos para convencer seu país a desistir de sediar a Copa do Mundo de 1986, muitos dos quais se parecem com os ouvidos hoje no Brasil. A lição se repete com outros temas: muitas discussões que nos parecem recentes estão aí há tempos, povoando inúmeros debates, muitas vezes sem qualquer solução prática. Hoje ilustro esse pensamento com três trechos antigos com opiniões ainda tão atuais que você poderia ler em qualquer jornal saído da gráfica nesta semana.
“A liberalidade da nossa legislação penal aliada a um conjunto de outras circunstâncias têm concorrido [...] para estimular a criminalidade no nosso País. O desprendimento com que se mata uma pessoa nesta terra é de causar pânico. [...] Examinando atentamente esse problema, [...] chegaremos à conclusão de que, na liberalidade de nossa lei penal, reside um dos principais fatores, a começar pela indulgência com que trata os infratores [...]. Esse é o primeiro passo para o crime. Os fatores subsequentes são conhecidos: começam nos escritórios policiais e terminam na Justiça”. Jornal do Brasil, maio de 1947.
“No meu país há muitos médicos [...] que não compreendem ou não querem compreender que a saúde se compra, e que há milhares de homens e mulheres na América Latina que não podem comprar a saúde. Médicos que não querem entender que para maior pobreza, maior a enfermidade [...], e que, portanto, mesmo cumprindo sua missão atendendo bem o doente que demanda seus conhecimentos pagando honorários, não pensam que há milhares de pessoas que não podem ir a seus consultórios – e são poucos os que lutam para que se estruturem os organismos estatais para levar a saúde amplamente ao povo”. Salvador Allende, presidente do Chile, dezembro de 1972.
“O aborto ganhou as ruas. As entidades feministas procuram entre pedestres do Centro adesão para que, na [...] Constituição, através de emenda popular, o aborto deixe de ser considerado crime. A Igreja mobiliza-se para protestar contra uma lei [...] que obriga os hospitais a realizar abortos nos casos já previstos no Código Penal – risco de vida materno e gravidez resultante de estupro. Enquanto a polêmica esquenta, milhares de mulheres recorrem ao aborto, mesmo clandestino. Quem pode pagar [...] recebe um atendimento de luxo com material descartável e remédios numa das muitas clínicas particulares da cidade. Mas a maioria fica mesmo entregue a aborteiros sem perícia ou assepsia e acaba nos hospitais públicos para tratar de complicações”.Jornal do Brasil, agosto de 1987.

Há uma semana, usei este espaço para trazer argumentos dos colombianos para convencer seu país a desistir de sediar a Copa do Mundo de 1986, muitos dos quais se parecem com os ouvidos hoje no Brasil. A lição se repete com outros temas: muitas discussões que nos parecem recentes estão aí há tempos, povoando inúmeros debates, muitas vezes sem qualquer solução prática. Hoje ilustro esse pensamento com três trechos antigos com opiniões ainda tão atuais que você poderia ler em qualquer jornal saído da gráfica nesta semana.

 

“A liberalidade da nossa legislação penal aliada a um conjunto de outras circunstâncias têm concorrido [...] para estimular a criminalidade no nosso País. O desprendimento com que se mata uma pessoa nesta terra é de causar pânico. [...] Examinando atentamente esse problema, [...] chegaremos à conclusão de que, na liberalidade de nossa lei penal, reside um dos principais fatores, a começar pela indulgência com que trata os infratores [...]. Esse é o primeiro passo para o crime. Os fatores subsequentes são conhecidos: começam nos escritórios policiais e terminam na Justiça”. Jornal do Brasil, maio de 1947.

 

“No meu país há muitos médicos [...] que não compreendem ou não querem compreender que a saúde se compra, e que há milhares de homens e mulheres na América Latina que não podem comprar a saúde. Médicos que não querem entender que para maior pobreza, maior a enfermidade [...], e que, portanto, mesmo cumprindo sua missão atendendo bem o doente que demanda seus conhecimentos pagando honorários, não pensam que há milhares de pessoas que não podem ir a seus consultórios – e são poucos os que lutam para que se estruturem os organismos estatais para levar a saúde amplamente ao povo”. Salvador Allende, presidente do Chile, dezembro de 1972.

 

“O aborto ganhou as ruas. As entidades feministas procuram entre pedestres do Centro adesão para que, na [...] Constituição, através de emenda popular, o aborto deixe de ser considerado crime. A Igreja mobiliza-se para protestar contra uma lei [...] que obriga os hospitais a realizar abortos nos casos já previstos no Código Penal – risco de vida materno e gravidez resultante de estupro. Enquanto a polêmica esquenta, milhares de mulheres recorrem ao aborto, mesmo clandestino. Quem pode pagar [...] recebe um atendimento de luxo com material descartável e remédios numa das muitas clínicas particulares da cidade. Mas a maioria fica mesmo entregue a aborteiros sem perícia ou assepsia e acaba nos hospitais públicos para tratar de complicações”.Jornal do Brasil, agosto de 1987.