\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Ecos de uma Copa do Mundo antiga

Publicada em 12/07/2013.

O Datafolha apontou que, mesmo após os protestos, 77% dos brasileiros continua favorável à realização da Copa. Nessa altura, adiantaria pouco abrir mão do torneio. Os gastos já foram feitos. E a maior indignação não era em relação ao Mundial, mas à comparação dos bilhões disponíveis para ele frente à dificuldade de se obter recursos para pontos mais prioritários. É preciso saber que o dinheiro da Copa, por maior que seja, é ínfimo no oceano de verbas federais – embora não seja tão irrelevante nos limitados orçamentos de municípios que estão gastando em nome dos jogos –, e a briga deveria ser não pelo dinheiro, mas contra a dificuldade em executar projetos grandes em outros momentos. No fundo, é simples: não pode interessar investir em saúde pública quando a campanha eleitoral é patrocinada por empresas que oferecem planos privados – o mesmo vale para a educação –, mas interessa investir em estádios que um dia foram públicos, se depois eles deixarem de sê-lo para virar concessões a empresas que também patrocinam campanhas. Noutra ponta, assim como a dimensão dos castos se reduz se colocada num contexto maior, é preciso ter em mente que o retorno da Copa será mínimo para o país em termos financeiros. O peso de um evento esportivo é menos que tímido, seja na Alemanha, com um PIB maior que o nosso, ou na África do Sul, bem menor – a influência das duas últimas Copas sequer chegou a 0,5% do PIB. A Copa não melhorará nossa vida. Mas desistir dela também não. Agora que embarcamos no projeto, só resta buscar algum tipo de retorno. E aprender que precisamos mesmo é de um projeto de país –não de megaeventos para acelerar obras já necessárias sem eles.  Há um exemplo no continente. Em 1974, a Colômbia garantiu-se como sede da Copa do Mundo de 1986. As críticas foram imediatas. Uma canção de protesto que circulou no país na épocapoderia ter tocado nas rádios daqui nos últimos tempos: “É melhor que saibas já/ que tu és um jogador/ do time perdedor/ do Campeonato Mundial/ porque a sede Mundial/ do teu bolso sairá/ como sai uma jogada/ de antemão preparada/ [...] se tu não tens trabalho, que importa/ se teu salário é esmola, que importa/ se no teu bairro não há escola, que importa/ temos a sede Mundial/ e no ano do Mundial/ ao estádio nunca irás/ pois a entrada valerá mais/ do que valia Pelé/ e a vida subirá/ como uma bola bem inflada/ e na tua casa comerão/ sopa de sede Mundial”. Em 1982, o presidente Belisario Betancur, vendo o país em crise econômica e sem obras iniciadas para a Copa, anunciou que a Colômbia se tornava a primeira nação a abrir mão de sediar o torneio. O dinheiro seria usado, afirmou, para melhorar a rede hospitalar, as estradas e os centros educativos do país. Mas não se fez nem uma coisa, nem outra, e a vida só foi melhorar muito depois – e não por causa da desistência. Não existem panaceias.