\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Brasil, junho de 2013

Publicada em 28/06/2013.

Como escreveu nesta semana um poeta cujo nome me escapa: se você não está confuso, não está bem informado. Os protestos de todo o Brasil cresceram de tal forma, e se desvirtuaram tanto, que passadas duas semanas da brutalidade policial em São Paulo o que temos é uma incerteza quanto aos rumos de tudo o que está aí. Das raras certezas que possuímos é que qualquer tentativa de escrever uma análise mais extensa se perde na sua condição de perecível – de um dia para o outro, várias vezes, a situação mudou completamente. É tentador fazer barulho neste momento, mas ficar quieto e tentar refletir também pode ser necessário. Juntar as peças para compor um quadro maior, em algum momento depois de a poeira baixar. No futuro, estudaremos junho de 2013, talvez estudemos 2013 e, quem sabe, também venhamos a estudar 2014, se a tensão prosseguir. Há quarenta anos, um grande estadista disse que os processos sociais não podem ser detidos, nem pelo crime, nem pela força, e suas palavras continuam atuais. Para o bem e para o mal, pelas conquistas e pela violência, com ideias corretas ou posições oportunistas, a efervescência vivida pelo Brasil ainda vai seguir por tempo indefinido, assim como a repressão – muitas vezes desnecessária – dos movimentos que persistirem. A aparente redução do número de pessoas que foi às ruas nesta semana não pode enganar. É apenas reflexo da resposta assustada e apressada das autoridades, que em poucos dias levaram a cabo uma tsunami de medidas, algumas das quais nem eram discutidas antes. Não caíram só centavos de passagem, mas também a PEC 37, enquanto 75% dos royalties do petróleo foram prometidos à educação. Surgiram promessas de todos os lados para atender às demandas e até o Senado resolveu jogar para a torcida aprovando a classificação da corrupção como crime hediondo. Mas não será tão simples convencer as gentes a voltarem para casa. A rua voltou a ser reivindicada. O Congresso nesta semana funcionou até de madrugada para dar um jeito nisso tudo, e o mais importante talvez nem tenham sido as medidas tomadas, mas a urgência de responder ao povo. A esmola está grande demais, cabe a desconfiança do santo, mas esse tipo de relação direta motiva as lutas a prosseguirem. Onde ela não existe, o povo já sente que pode ir além. Em Santa Maria, desde a tarde de terça-feira até o momento em que escrevo este texto, manifestantes ocupam, comem e dormem na Câmara de Vereadores, pedindo a renúncia dos responsáveis pela vergonhosa CPI da Boate Kiss, forjada para terminar em pizza – como revelam gravações vazadas nesta semana. Até o fim da tarde de quinta, nenhum vereador questionado disse palavra. São os que ainda não entenderam que o bonde da história já se foi.