\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

Não é por 20 centavos. Mas ainda é, sim

Publicada em 21/06/2013.

Que eles reduzam a tarifa, após dizer que era impossível, é uma conquista colossal. Que isso seja feito no estado de São Paulo, onde vinham sendo massacrados de diversas formas os movimentos sociais, é ainda mais notável. Que os protestos tenham crescido e chegado a quem não saía às ruas, também é importante. É uma evolução democrática. Mas não é verdade que o país tenha acordado só agora. Há anos existe gente lutando nas ruas em manifestações justas, mas que não cresciam por ser criminalizadas pela imprensa e reprimidas pela polícia, como também foram os primeiros manifestantes desta onda atual. Ter rompido a barreira dos mil e poucos manifestantes e retomado a rua é uma evolução democrática. É assim que precisa ser mantido. Sem gritos por impeachment ou qualquer outra quebra institucional que só nos fariam retroceder nos avanços que possibilitaram essas marchas. Nosso legado deve ser o fim do discurso acomodado de que “só o voto muda”. As urnas mudam mais, mas nós podemos mudar um tanto do que fazem os poderosos entre um pleito e outro. Agora, cuidado com a multiplicidade de causas. Que novas demandas surjam é um sinal de que devemos nos organizar e cobrar com mais firmeza certos temas. Mas de nada adianta sair às ruas segurando um cartaz inócuo pedindo o fim da corrupção. É claro que a corrupção precisa ser combatida, mas nunca adiantou fazer protestos genéricos, amplos, sem um foco específico. É como pedir o “fim da maldade no mundo”. Nós mudamos atacando pontos. É horrendo ouvir alguém dizer que já não importa o reajuste, que tudo se tornou mais amplo. Se está tão amplo que nem o objetivo concreto interessa, já nada interessará mais do que a causa maior e impalpável da “corrupção” – e nada mudará. A corrupção fica clara no dia a dia. Fica clara no aumento das passagens, concedido a empresas que não abrem seus balanços financeiros, por políticos cujas campanhas foram patrocinadas pelas próprias empresas. A passagem ainda é a melhor metáfora. A maneira como o reajuste está sendo derrubado é um sinal claro de que as conquistas estão vindo da forma errada. Tão grande quanto o questionamento do novo valor, era o questionamento ao monopólio que possibilita esses aumentos. E nenhum governante, até aqui, fala em tocar nos lucros abusivos das empresas, nem em abrir as planilhas de custos falseadas. Só se fala em isenções fiscais para os donos de ônibus. Não se está mexendo em uma vírgula na realidade sombria que permitiu mil aumentos antes deste. Se finalmente somos ouvidos, o primeiro passo para não sermos mais é que cada um erga a voz por uma causa diferente. Um passo de cada vez. Ou só ganharemos, mesmo, uns centavos.