\\ JORNAL DA MANHÃ \ COLUNISTA \ Maurício Brum

O prêmio pelos nossos resmungos

Publicada em 14/06/2013.

Os aumentos da tarifa de ônibus não seguem a inflação nem aumentam salários dos motoristas, mas os reajustes são vistos quase anualmente no país, sempre abusivos. Para onde vai o dinheiro? A ausência de licitação na maioria das cidades e a insistência das empresas de transporte em não publicar seus balanços ajudam a entender. Em São Paulo, agora, há uma argumentação de que os protestos não são justos, pois o aumento veio abaixo da inflação. Nada mais mentiroso. Se desta vez há subsídios, historicamente o aumento se acumula muito acima do crescimento dos custos operacionais, numa espiral de lucros. Isso se dá em qualquer lugar do país, mas fiquemos nos ilustrativos números de SP: considerando apenas a inflação, a passagem de ônibus – que custava 50 centavos em 1994 – hoje deveria estar na casa dos R$ 2,16. O reajuste acaba de elevar o preço para R$ 3,20. Que a violência decorrente dos protestos seja condenável, não há dúvidas. Mas a violência só nos parece esse horror por uma escolha da imprensa em valorizar atos de meia dúzia sobre um movimento que levou 10 mil (ou mais) às ruas, a imensa maioria dos quais definitivamente não vandalizou nada. Ter jornalões conservadores (todos eles) só é regra no Brasil. Essa desconexão com a realidade talvez explique as dificuldades financeiras de muitos deles. Há manifestação por qualquer motivo? Vamos criminalizá-la e destacar os engarrafamentos causados pelo protesto. Mas, um dia depois do ato na Paulista, a cidade registrou 283 km de lentidão, o maior engarrafamento do ano – e não havia mais barricadas nas ruas. As vitrines quebradas são lamentáveis, mas mais violento é o que se faz com gente como o gari Célio Ferreira. Entrevistado por um site (não um jornal), ele contou que agora terá de pular refeições, pois o salário não dá mais para chegar em casa. O transporte já é o terceiro maior gasto dos brasileiros, mesmo sem ter carro. Nossa imprensa, de certo modo, repete o discurso de boa parte de nós, sujeitos da classe média acomodada – que reclamamos que ninguém se mobiliza no país, aplaudimos os protestos fora do Brasil, mas reclamamos ainda mais quando alguém enfim se mobiliza aqui (“bando de desocupados”) mesmo que, por fim, não saiamos do sofá nem pelas causas deles, nem pelas que dizemos ser justas. Os paulistanos que foram às ruas eram “vândalos”.Se são os turcos, aí são “manifestantes”. Esse contraste está na capa de uma Folha de S. Paulo desta semana, confira.Repito as palavras de Juan Arias, correspondente do El País no Brasil, que constatou como só aqui os protestos na rua são considerados coisa de outro mundo: “a classe média, pouco acostumada neste país às manifestações de protesto nas ruas, está aplaudindo as autoridades, que pediram mão firme à polícia contra as mobilizações”. Merecemos todos os achaques, a corrupção e os engarrafamentos dos quais reclamamos sentados nos bancos de nossos carros.